MUSICALIDADES NO SAGRADO FEMININO AFRO-RELIGIOSO
Palavras-chave:
Música afro-brasileira, Matriarcas do candomblé, Música-escrevivência, Sagrado afro-religioso , Mulheres negras na músicaResumo
Este trabalho resulta da minha pesquisa de mestrado em Musicologia, na qual investigo o matriarcado de mulheres negras no contexto afro-religioso do candomblé, com o objetivo de compreender a figura da mulher negra enquanto líder religiosa e agente responsável pela preservação e articulação entre os domínios religiosos, culturais, intelectuais e musicais. Para tanto, utilizo o conceito de escrevivência (Evaristo, 1996) como ferramenta teórico-metodológica, analisando a escrevência de Maria Júlia da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro do Gantois; de Mãe Menininha, Ialorixá do mesmo terreiro, falecida em 1986; e de Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, falecida em 2018. Este conceito permite compreender de que maneira a palavra, a memória e a experiência dessas mulheres se materializam em sonoridades e práticas pedagógicas afrorreferenciadas. A pesquisa apoia-se em metodologias interdisciplinares que articulam etnografia, análise musical e reflexão crítica a partir de epistemologias afrodiaspóricas, dialogando com autoras como Leda Maria Martins, Angela Lühing, Laila Rosa, Nina Graeff, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e tantas outras. As experiências de campo em locais como Ilê Axé Opô Afonjá, Gantois e a Irmandade da Boa Morte evidenciam que a música, nessas práticas, transcende sua dimensão estética, configurando-se como espaço espiritual, comunitário e político. Assim, discuto como a atuação dessas matriarcas evidencia a centralidade da música na transmissão de saberes e na construção de uma pedagogia negra de matriz africana, contribuindo para o debate sobre mulheres negras na música e para a valorização das tradições afro-brasileiras em perspectiva etnomusicológica.