O BEIJO DE MARIA PRETINHA:Opressão e interseccionalidade na representação feminina em um folguedo do Cariri cearense
Palavras-chave:
Etnomusicologia; Guerreiro; Semiótica Existencial; Interseccionalidade; reparação epistêmica.Resumo
Nossa pesquisa investiga as representações da opressão de gênero, classe e etnia em folguedos populares – focalizando uma apresentação do Guerreiro de Mestre Cosmo Lima gravada a 30/12/2019 em Juazeiro do Norte (CE), com especial atenção à peça Maria Pretinha e seu contexto. O objetivo é discutir como esse folguedo, associado ao ciclo natalino e à religiosidade popular, incorpora e questiona discursos de subalternização através de sua performance sincrética. A fundamentação teórica baseia-se na Semiótica Existencial de Eero Tarasti – que permite a análise de manifestações sincréticas articulando corporalidade, identidade, interações sociais e visão de mundo através do chamado modelo zêmico –, bem como nas contribuições de Stuart Hall sobre discurso e poder. Dialoga-se ainda com o conceito de interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw, evidenciando-se a sobreposição de opressões sofridas pela personagem analisada. A metodologia envolve a análise semiótica da peça Maria Pretinha, considerando texto verbal, coreografia, música e elementos visuais da performance. A narrativa apresenta um processo de degradação social e existencial de uma personagem mulher, negra e pobre que é abandonada, estigmatizada, encarcerada e explorada sexual e afetivamente. Discute-se ainda a relação dessa representação com arquétipos culturais como a Pomba Gira, bem como a articulação entre representações do grotesco e sublime, segundo a perspectiva de Tarasti. Os resultados da pesquisa, ao evidenciarem a representação crítica da opressão interseccional gerada em uma comunidade socialmente vulnerável, apontam para uma reparação epistêmica que reconhece a sofisticação estética e a consciência social de uma expressão artística essencialmente comunitária, ainda que articulada por seus mestres.