OS CAMINHOS SONOROS NO SUDOESTE AMAZÔNICOAs músicas viajantes dos Huni Kuin, Kanamari, Kulina, Noke Kuin, Yawanawa e Ashaninka
Palavras-chave:
etnomusicologia amazônica; xamanismo; ayahuasca; circulação cultural; microtonalidade; transformação estruturalResumo
Este artigo analisa as intensas trocas musicais entre povos indígenas do sudoeste amazônico, focalizando repertórios xamânicos vinculados ao complexo ritual da ayahuasca. A partir da análise comparativa de cinco versões da canção ramina coramino, que circula entre Kulina (Arawá), Kanamari (Katukina), Yawanawá, Huni Kuin (Pano) e Ashaninka (Aruak), demonstramos como os sistemas voco-sonoros operam enquanto vetores privilegiados de mediação intercultural. Argumentamos que essas "músicas viajantes" constituem um sistema de transformações estruturais onde cada versão mantém invariantes (núcleo lexical rami/sacorona, contexto xamânico-ayahuasqueiro) enquanto opera mudanças sistemáticas nos planos linguístico, musical e ritual. Três eixos articulados estruturam a análise: as relações entre música, ritual e ayahuasca; as dinâmicas de trocas interculturais e estratégias de diferenciação identitária; e o papel das flutuações microtonais na comunicação com seres invisíveis. A pesquisa revela processos generativos através dos quais coletivos indígenas produzem simultaneamente aproximação e diferenciação, desafiando noções essencialistas de autenticidade e propriedade cultural.