Música e Saúde Mental - A ambiguidade do impacto da música em quem faz e em quem ouve

Autores

  • Rafaela Cruz dos Santos UFBA Autor

Palavras-chave:

comunidade, desigualdade social, Música, Resistência, saúde mental

Resumo

Este artigo investiga a ambiguidade do impacto da música na saúde mental de artistas e receptores, centrando-se nas experiências de populações periféricas, negras e marginalizadas no Brasil. Adotando uma abordagem interdisciplinar (filosofia, estudos culturais, feminismos negros), explora como a música opera simultaneamente como ferramenta de cura e resistência e é também espaço de vulnerabilidade e sofrimento.

A música possui potência ambivalente para a saúde mental. Para o receptor, atua na regulação emocional e fomenta conexão comunitária. Em contextos de vulnerabilidade, espaços como saraus (exemplificado pelo estudo "Sarar-Sopapar-Aquilombar", 2019) são vitais para elaborar sofrimentos e fortalecer identidades coletivas, promovendo cura e pertencimento. Angela Davis (1999) demonstra como o blues, ao nomear violências e sofrimentos, rompeu silêncios impostos às mulheres negras, transformando dores individuais em narrativas coletivas de resistência. Assim, a música funciona como fio condutor para resiliência e conexões que transcendem o individual.

Contudo, o campo artístico impõe pressões sociais e estruturais que afetam negativamente a saúde mental dos criadores. Esta ambiguidade não é inerente à arte, mas resulta de estruturas desumanizantes que convertem expressão em mercadoria e cura em espetáculo. Enquanto fortalece receptores, a música pode fragilizar criadores. Sua potência emancipatória reside na capacidade de transmutar sofrimento em resistência e criar vínculos coletivos. Para realizá-la plenamente, é imperativo confrontar as desigualdades estruturais que atravessam os corpos e vozes que transformam a arte em campo de potência de vida e transformação coletiva.

Downloads

Publicado

15.11.2025

Edição

Seção

GT 12- Etnomusicologia Negra Amplificando Vozes: A valorização de saberes no institucional

Como Citar

Cruz dos Santos, R. (2025). Música e Saúde Mental - A ambiguidade do impacto da música em quem faz e em quem ouve. ANAIS- ASSOCIAÇÂO BRASILEIRA DE ETNOMUSICOLOGIA, 1(12). https://eventos.abet.mus.br/enabet/article/view/183