Performances da/em disputa: corpo, texto e memória no repente nordestino
Palavras-chave:
Improvisação; performance; corpo; texto; memóriaResumo
A cantoria de viola, conhecida também como repente nordestino, é uma forma de improviso poético-musical que tem no imponderável da vida cotidiana sua matéria-prima criativa. Um duelo poético travado entre dois cantadores violeiros guiados por rígidos critérios de composição verbal e “regras” bem acordadas de métrica, rima e oração. Criatividade e improviso, neste caso, não são compreendidos como liberdade expressiva ou desvio das normas, mas como formas de manipular e (re)arranjar os signos culturais e expressivos de maneiras imprevistas. O presente trabalho, resultado de pesquisa de doutorado em andamento, lida com a voz e o gesto (corpo) como elementos da/em disputa na arte repentista para além das regras poéticas amplamente refletidas e verbalizadas (Sautchuk, 2012). Trata-se de investigar tanto as performances (Martins, 2003) da disputa poética (o ritual da cantoria), quanto as disputas dos modelos de ação performática, seu código de conduta, o que chamamos neste trabalho de uma sprezzatura do cantador violeiro, negociada constantemente em tensas confabulações (Cardoso, 2013) e a partir de diferentes agenciamentos. O presente trabalho é uma reflexão sobre o corpo, as técnicas e as habilidades do cantador de viola (as ordens criativas do canto improvisado ao som da viola), procura-se, de uma perspectiva etnográfica, “pôr em intriga” (Ricoeur, 2012) as distintas visões de mundo em jogo na re/(a)presentação da arte repentista e na construção de uma ética do desafio poético (Travassos, 2000).