ESCUTAR PARA AMPLIAR: reflexões sobre conhecimentos musicais na escola tikmũ’ũn
Palavras-chave:
Tikmũ’ũn; escola indígena; educação musical; etnomusicologia; aprendizagemResumo
Os Tikmũ’ũn são conhecidos como um povo indígena cujas produções acústicas ocupam a centralidade de suas práticas comunitárias, motivo pelo qual lhes foi consagrado o epíteto “povo do canto”. A presença sonora nas aldeias é patente: o dia todo amplificadores, autofalantes, televisão e celulares tocam diversos gêneros musicais, além disso, cantos-yãmĩyxop ressoam no pátio central, nas aulas de cultura da escola, nos rituais noturnos de cura ou na voz de uma criança brincando no quintal de casa. Estes cantos são estudados pela etnomusicologia há décadas e ainda oferecem férteis campos de investigação acadêmica devido à sua complexidade. No contexto escolar, as tentativas de conciliação entre modos de aprendizagem tikmũ’ũn e pedagogias não-indígenas evidenciam assimetrias epistemológicas que dificilmente podem ser acomodadas pelas traduções impacientes e equivalências precipitadas que muitas vezes daí emergem. A integração eficaz entre esses mundos depende da disposição da Escola em desvestir-se do colonialismo e encarar a imprescindível tarefa de rever seus conceitos de música, arte, performance, bem como seus métodos didáticos, avaliativos, procedimentos burocráticos e mais. Naturalmente, descontinuar os processos de homogeneização étnica, uniformização cultural e adestramento corporal pelos quais esta instituição é historicamente responsável é desafiador, mas não será de outra forma que chegaremos à educação plural e inclusiva que ambicionamos. É preciso escutar os cantos-yãmĩyxop, as narrativas ancestrais, os discursos dos intelectuais, as perspectivas das crianças, das mulheres, dos idosos para, então, aprendermos a compartilhar, de fato, os alcances da música enquanto conhecimento humano que constrói pontes entre povos que sustenta.