MÚSICA NEGLIGENCIADA: pensar a sociedade contemporânea pela via das sonoridades e dos marcadores sociais de diferença
Palavras-chave:
música negligenciada; marcadores sociais de diferença; interseccionalidade; poder simbólico; políticas da escutaResumo
Este artigo desenvolve e fundamenta a noção de “músicas negligenciadas” como ferramenta analítica para examinar manifestações sonoras originadas em camadas socialmente vulnerabilizadas, racializadas e territorialmente marginalizadas. A proposta articula debates em etnomusicologia, estudos de mídia, estudos sonoros e teorias do poder simbólico para compreender como certas músicas são deslegitimadas, silenciadas ou autorizadas a circular apenas após processos de ressignificação compatíveis com interesses mercadológicos e moralidades dominantes. Analiso rap, funk e Orikis como expressões que compartilham matriz afrodiaspórica e vínculos comunitários, mas que percorrem trajetórias distintas de legitimação. Defendo que a negligência musical opera como dispositivo social, histórico e econômico, produzindo uma dicotomia interna em que um “lado A” tende ao mainstream e um “lado B” permanece endêmico, local, situado e frequentemente estigmatizado. Ao final, discuto como a experiência sonora — volume, grave, ruído, distorção e presença — funciona como política do sensível, implicando disputas por espaço urbano, cidadania e direito à existência pública.