De quando data a tradição? Pistas interculturais na performance de canções de um coro nipo-gaúcho
Palavras-chave:
Etnomusicologia, Música e Migração, Imigração Japonesa no Rio Grande do Sul, Estudos JaponesesResumo
Este artigo aborda as intersecções de práticas sonoro-musicais, migração e questões identitárias de um grupo de imigrantes japonesas e japoneses vindos no pós-guerra para Porto Alegre (RS) e faz parte de uma pesquisa em andamento no âmbito do mestrado em Etnomusicologia. A partir do trabalho de campo iniciado em 2024, o objetivo aqui é entender como são operacionalizadas duas das categorias nativas (dōyō e tradicional) do universo sonoro-musical deste grupo de imigrantes que se organiza em formação coral, uma expressão externa às práticas musicais tradicionais do Japão, e que mantém diálogo com referências sonoro-musicais hibridizadas pelos processos de globalização. O subgrupo mais assíduo aos ensaios do coro compreende 13 nipo-gaúchas na faixa de 75 a 90 anos, das quais 11 são mulheres (9 issei e 2 nissei) e dois são homens issei. O repertório de apresentações é formado por canções que remetem às suas infâncias e juventudes, trazendo memórias em solo japonês, entre-mares e em solo brasileiro, conforme as observações preliminares em campo. Dentre outras categorias, o repertório coral conta também com canções de criança (dōyō), as quais são frequentemente apontadas pelas integrantes do coro como tradicionais. No entanto, uma delas (Kisha Poppo) chama atenção por trazer em sua letra a expressão supiido (japonização da palavra anglófona speed). A partir de uma etnografia performativa de convivência prolongada, participações em eventos e entrevistas semiestruturadas, é possível conjecturar que o “tradicional” refere-se aos marcos sonoro-temporais de pessoas que nasceram a partir de 1937, muitas décadas após a reabertura do Japão ao comércio exterior ocidental na Era Meiji (1868-1912), portanto já imersas em fluxos de trocas culturais ocidentalizadas e seus desdobramentos.