Som, Corpo e Ancestralidade em comunidades de terreiro: Contribuições da Etnomusicologia de Terreiro ao Debate Acadêmico Musical.
Palavras-chave:
Etnomusicologia de terreiro; Corpo-oralidade; Escrevivência; Candomblé; Ilê Axé Opô Afonjá.Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre os modos de preservação e transmissão dos saberes tradicionais no Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador/BA, destacando a música, os atabaques, as palmas e o corpo como operadores da memória e da aprendizagem ritual. A pesquisa, de abordagem qualitativa e interpretativa, investiga os processos pedagógicos intergeracionais mediados pela corporeidade e pela oralitura — conceito desenvolvido por Leda Maria Martins — entendida aqui como corpo-oralidade em ação. Dialogando com Kofi Agawu e J. H. Kwabena Nketia, compreende-se a música como linguagem e estrutura de pensamento na cosmovisão africana e afro-diaspórica. Além disso, retoma-se a noção de escrevivência cunhada por Conceição Evaristo, reconhecendo os relatos corporificados das experiências vividas como método e fonte de conhecimento. As práticas performáticas observadas configuram uma epistemologia própria, fundada na ancestralidade, na convivência e na escuta sensível dos corpos. Ao considerar os saberes de mestres e mestras como notórios saber, como propõe José Jorge de Carvalho, e ao dialogar com a perspectiva de Angela Luhning sobre a etnomusicologia de terreiro como campo crítico e situado, o trabalho oferece contribuições significativas para o desenvolvimento de metodologias anticoloniais e afroreferenciadas no ensino superior e na pesquisa musical. Neste contexto, destaca-se o projeto “Orin Afonjá – Onã Ayó”, que investiga e potencializa a corpo-oralidade de crianças do terreiro, reafirmando práticas comunitárias de cuidado, transmissão e resistência por meio da musicalidade.