DA PESQUISADORA À MEDIADORA: Etnomusicologia e políticas públicas culturais em um espaço urbano popular
Palavras-chave:
espaços urbanos populares; políticas públicas culturais; posicionalidades da EtnomusicologiaResumo
Busco neste trabalho refletir sobre as posicionalidades acionadas pelo campo da Etnomusicologia, partindo de um caso de relações de campo iniciadas em 2011 e continuadas até a atualidade. Considero aqui as transformações emergentes desde o contexto etnográfico inicial, focado em narrativas sônicas junto a um bairro popular da região metropolitana de Porto Alegre/RS. O recorte é centralizado na rede de relações com o grupo Mesclã, composto desde o início dos anos 2000 majoritariamente por rappers operários da indústria metalúrgica e que, recentemente, um de seus membros realizou a ruptura radical com a estrutura de classe ao perseguir o “sonho de viver do rap”. Neste momento, meu papel de pesquisadora/acompanhadora junto ao grupo passou também a mediadora/decodificadora das políticas culturais voltadas para periferias urbanas. Essa “nova” posição propiciou-me questionamentos que atravessam a própria formação em Etnomusicologia: quais os possíveis impactos, contribuições, desafios e/ou limitações das ações de etnomusicólogos/as em iniciativas culturais junto a grupos com os quais interagimos? Os diálogos sobre pré-requisitos de um edital, a verba municipal para a cultura, por exemplo, abrem espaço para interlocutores/as e etnomusicóloga discutirem – nem sempre em consenso – sobre as estratégias quanto aos modos de produção capitalista, em termos políticos, étnico-raciais ou territoriais, acompanhando distopias do espírito neoliberal e com marcações de conservadorismo. Embora caiba à arte narrar a vida nos contextos urbanos populares, evidencia-se os desafios ao buscar inserir-se nas políticas públicas, bem como aparentes contradições da periferia e das políticas para a cultura.