A ETNOMUSICOLOGIA NEGRA NA BANDA AGRESTIA
Palavras-chave:
etnomusicologia negra, rock periférico, transgressão, práxis sonoraResumo
Este artigo propõe um relato de experiência da banda AGRESTIA, da qual o autor é cofundador, guitarrista e coautor das músicas "Curandeiro" e "Tragédia em Todo Gueto". Partindo de processos de escuta, convivência e construção coletiva ao lado de companheiros negros e periféricos de Salvador - sujeitos atravessados pela violência urbana e pela marginalização estrutural - reflete-se sobre como as composições se articulam a práticas de transgressão estética e política analisadas no artigo "Juventude Negra e LGBTQI+ no Movimento da Transgressão como Prática de Libertação", da plataforma Batekoo. A pesquisa tem caráter qualitativo interpretativo, com base em análise lírica, imagética e contextual, e se insere no campo da etnomusicologia negra e decolonial, reconhecendo a produção musical da banda como ferramenta de denúncia, memória coletiva e cura ancestral. "Curandeiro" revela conexões com espiritualidades afroindígenas, resistência territorial e cosmopercepção afrodiaspórica; "Tragédia em Todo Gueto" constitui crônica sonora da necropolítica nas favelas, evidenciando violência estrutural e abandono estatal de populações negras periféricas. O estudo evidencia potência da música como linguagem insurgente e práxis sonora para juventudes negras em contextos urbanos vulnerabilizados. Conclui-se que as produções da AGRESTIA constituem uma práxis de denúncia, pertencimento coletivo e construção de sentidos políticos partilhados, atravessando também sujeitos que, como o autor, mesmo não sendo negro, nem da territorialidade periférica, se implicam eticamente por meio da escuta situada e são transformados por essa experiência.